Na novela “Vale Tudo”, o vilão Marco Aurélio (interpretado por Alexandre Nero, no remake de 2025) foge em um jatinho e, no ar, dá uma banana, enquanto a trilha sonora martela a música “Brasil, mostra a tua cara”.
É exagero comparar o personagem ao ministro Alexandre de Moraes, ou ceder à alusão ao filme “Il generale Della Rovere”, de Roberto Rossellini. Mas certamente ele se fez merecedor de futuras biografias ou de servir de inspiração para novelas similares a “Vale Tudo”.
Moraes foi promotor do MP-SP por cerca de 11 anos. Foi secretário de Justiça de SP na gestão Alckmin entre 2002 e 2005 e assumiu a Segurança Pública em 2015. Entre 2007 e 2010, atuou como “supersecretário” de Kassab (nas pastas de Transportes, CET, SPTrans e Serviço Funerário), até ser exonerado. Filiou-se ao PSDB em 2015 e ocupou o Ministério da Justiça de 12/05/2016 a 22/02/2017, quando Temer o indicou ao STF.
Foi um período caótico. Ignorou os problemas penitenciários em Manaus, negou ajuda federal a Roraima, para prevenir uma carnificina nas prisões (que de fato ocorreu), promoveu a militarização da política de drogas e pretendia desviar recursos do Fundo Penitenciário para atividades policiais.
Seu Plano Nacional de Segurança Pública foi considerado por vários especialistas como o pior de todos. Em vez de focar na promessa de redução de homicídios, o plano previa até erradicar as plantações de maconha no Paraguai.
Seria cômico se não fosse trágico. O ministro pretendia até desviar recursos do Fundo Penitenciário para aumentar em sete vezes o contingente da Força Nacional, ignorando que sua política contribuiria para agravar a superlotação do sistema carcerário. Moraes chegou a se deixar filmar cortando pés de maconha no Paraguai.
Sua trajetória no Executivo terminou com a indicação para o Supremo Tribunal Federal. A nomeação provocou forte reação de um grupo de estudantes de Direito da Universidade de São Paulo (USP), onde Moraes lecionava. Apontava-se, especialmente, sua truculência:
“A gente já viu a postura dele em outros cargos que ocupou, como a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o Ministério da Justiça. À frente desses cargos ele demonstrou desrespeito a direitos fundamentais, a direitos humanos”.
“A PM de São Paulo é uma das mais truculentas. Foi repressiva com estudantes secundaristas, e Moraes permitiu reintegração de posse sem mandado judicial. Diante da crise carcerária, ele demonstrou uma atitude displicente”, afirmaram os estudantes na ocasião.
Com o advento do governo Jair Bolsonaro, surgiu um novo Alexandre de Moraes. Algum tempo antes do 8 de Janeiro, já havia sinais nítidos de um golpe em marcha. O então presidente do STF, Dias Toffoli, confiou a Moraes a tarefa de defender o Tribunal dos ataques que se intensificavam. Cercando-se de policiais de sua confiança, tornou-se peça central na contenção da tentativa de golpe, demonstrando admirável coragem pessoal. Mesmo diante das ameaças sofridas por ele e seus familiares, não vacilou, consolidando-se como um símbolo de defesa da democracia.
Mas, efetivamente, entrar para a história não estava em seus planos. Quando Daniel Vorcaro abriu seu pote de ouro, aceitou um contrato absurdamente elevado com o escritório de sua esposa. A partir daí, tornou-se a principal arma do bolsonarismo, em aliança com a mídia corporativa, para desmoralizar o processo eleitoral e ocultar os malfeitos de Flávio Bolsonaro. Moraes virou o maior símbolo da campanha empreendida pelo bolsonarismo, associando sua imagem à do presidente Lula e permitindo transformar denúncias em uma barafunda informacional que varreu os crimes de Flávio Bolsonaro para debaixo do tapete. Assim como salvou a democracia no período anterior, tornou-se o grande responsável pela maior ameaça à democracia em toda a história do país.
Agora, há tentativas de aproximação com Flávio Bolsonaro, depois de ter servido de álibi para a eleição de uma bancada de bolsonaristas ao Senado.
Se for cassado, poderá pegar o jatinho e dar uma banana ao país.
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Paulo Dantas
8 de outubro de 2026 8:29 am“A traição é uma questão de datas” Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord.
Rui Ribeiro
8 de outubro de 2026 11:21 am“Agora, há tentativas de aproximação com Flávio Bolsonaro, depois de ter servido de álibi para a eleição de uma bancada de bolsonaristas ao Senado”.
Como assim? Será só fachada, como, entre outros crápulas, o Nikolas e o Bostonaro?
Jo Lima
8 de outubro de 2026 12:13 pmNassif enfim vendo o verdadeiro alexandre de moraes. Logo terá um artigo sobre o mais recém cabeça dd planilha, Fernando Haddad.
Naldo
8 de outubro de 2026 1:29 pmuma derrota de Lula enterra a carreira do Haddad, só Lula via nele um sucessor viável, mas a verdade é que além dele, não há muitos melhores, talvez tirar Dino do STF.
Jordan Fabrício Martins
8 de outubro de 2026 1:52 pmO velho LN ressuscitando!?
Mas sua especial astúcia ainda cede lugar para a ingenuidade (“Com o advento do governo Jair Bolsonaro, surgiu um novo Alexandre de Moraes…”).
Só não via quem não queria: mesmo na (narrativa) da “defesa de democracia”, AM foi truculento com direitos fundamentais. E era cortina de fumaça para a corrupção familiar.
Respeitosamente: LN nos deve um esclarecimento: somente agora reconhece a lista de defeitos? Posso estar equivocado, talvez haja alguma coluna anterior em que LN tenha feito justas ressalvas.
A ver!
Antonio Uchoa Neto
8 de outubro de 2026 2:13 pmEu escrevi isso, aqui no GGN, não lembro quando: “Quanto a Alexandre de Morais, enganou-se quem quis se enganar. Indicado por Temer, com todos os predicados e dados biográficos característicos de gente dessa laia, sempre me pareceu um herói de ocasião, um general Della Rovere (filme de Rossellini, em que um bandidinho pé-de-chinelo é aliciado pelos alemães para infiltrar-se em um grupo da resistência italiana, no final da Segunda Grande Guerra), um projeto de gilmar mendes, só que menos esperto e menos atilado.”
Hoje, vejo que errei, pois, revendo o filme (que tinha visto ainda rapaz, no RJ, no Cineclube Macunaíma da ABI, ou no Estação Botafogo, não me recordo), que aqui foi lançado com o inacreditavelmente estúpído título “De Crápula a Herói”, o personagem de Vittorio de Sica se redime, no final. De resto, mantenho e reitero tudo o que escrevi. Afinal, não tenho qualquer expectativa de que Alexandre de Moraes vá fazer o mesmo; vai, provavelmente, lamber as botas de Flávio Bolsonaro – caso este seja eleito – para conservar sua posição, seu cargo, e tudo o mais.
RONALDO BRAGA
8 de outubro de 2026 5:26 pm“Se for cassado, poderá pegar o jatinho e dar uma banana ao país.”
Eu faria a mesma coisa, se fosse ele. E o Lula também poderia fazer a mesma coisa.
Esse país que aí está não os merece.
Alexander Blaw
8 de outubro de 2026 7:22 pmCaro Nassif, discordo veementemente da sua visão de que Alexandre de Moraes e o STF salvaram a democracia brasileira. Na minha avaliação, o Supremo agiu muito mais em defesa de seus próprios interesses institucionais do que por um compromisso genuíno com a democracia. Afinal, foi o próprio STF que abriu as portas do inferno que estamos vivendo, ao chancelar o impeachment de Dilma Rousseff, que considero um golpe, e posteriormente legitimar os abusos da Lava Jato. Não há como ignorar essa responsabilidade histórica e depois apresentar a instituição como salvadora da República.
Também discordo da ideia de que, sem Moraes, o golpe pretendido por Bolsonaro necessariamente teria se consumado. Nossa democracia possui outros mecanismos institucionais de resistência, e considero equivocado atribuir exclusivamente ao STF a preservação da ordem constitucional. Transformar o Supremo em herói é, na minha opinião, apagar sua própria contribuição para a crise política que alimentou o bolsonarismo. A conta do STF chegou e, temo, ainda poderá chegar muito mais cara, possivelmente pelas mãos de um futuro governo de direita. Era previsível que, depois de tantas presepadas durante a Lava Jato e o processo de impeachment de Dilma, o Supremo acabaria sendo cobrado politicamente por suas decisões. O problema é que essa cobrança pode vir acompanhada de consequências graves para a própria democracia.
Outro erro político imperdoável foi Lula não ter antecipado esse desgaste e chamado o STF à responsabilidade durante seu mandato. Em vez de cobrar uma reflexão institucional sobre os excessos do passado, preferiu se alinhar diretamente ao Supremo durante os julgamentos dos atos de 8 de janeiro, vinculando a imagem de seu governo à instituição. Apostou que o bolsonarismo perderia força, mas, na minha avaliação, essa estratégia produziu o efeito contrário. Lula perdeu a oportunidade de defender a responsabilização pelos atos antidemocráticos sem assumir o ônus político de defender o STF.
Lula insistiu numa política de conciliação permanente, tanto com o STF quanto com o Congresso, mesmo diante de uma sociedade profundamente insatisfeita com as instituições e que, a meu ver, demonstrava crescente disposição para o embate político. Preferiu acomodar os conflitos em vez de disputar politicamente os rumos do país. E agora paga o preço dessa escolha. Por isso, Nassif, discordo profundamente dessa narrativa de que o STF foi o grande salvador da democracia. Para mim, ele também é um dos principais responsáveis pela crise que hoje afirma combater. E o mais trágico é que a conta de seus erros poderá ser cobrada justamente por aqueles que representam uma ameaça à própria instituição e à democracia brasileira.
Rui Ribeiro
9 de outubro de 2026 8:58 amOu seja, O STF criou a doença a fim de nos vender o medicamento.
Jose de Almeida Bispo
8 de outubro de 2026 10:00 pmO Brasil é um milagre.
Consegue até produzir um Lula.
Mesmo com tantos Moraes à espreita.
Vini
8 de outubro de 2026 11:06 pmPena que sua ficha, assim como a da maioria da esquerda, caiu tarde demais. Até ontem vivia passando pano pra esse ministro.
Arthur Arruda
11 de outubro de 2026 3:28 amParabéns Nassif pela dignidade do artigo, pela coragem do seu posicionamento e pelo conjunto de toda uma trajetoria que sempre se norteou pela honestidade intelectual, profundidade da análise e compromisso com a verdade factual.
Quanto aos bravateiros que apontam incoerencia, condescendencia e ingenuidade justamente onde ha rara consistência na pratica de jornalismo com seriedade, cabe apenas lamentarmos por avaliações quase sempre fundadas em paixões ideologicas, maniqueismo pedestre e baixa amplitude intelectual para leituras mais sofisticadas de figuras tao complexas e controversas como AM.
Carioca
9 de outubro de 2026 1:14 pmO poder judiciário sempre sub judice a cada “novo” governo …
Mônica
10 de outubro de 2026 9:01 amNão nos esqueçamos que, além de ter sido indicado ao STF pelo vampiro golpista Temer, Xandão votou a favor da prisão política de Lula em segunda instância em 2018.